Sobre Unidade Cristã

Fui treinado com uma formação teológica que evitava contato com os chamados liberais, pentecostais e principalmente católicos. Grupos que não soubessem repetir o nosso catecismo deveriam ser mantidos à distância. 

Mas nos últimos anos venho perdendo meus preconceitos. 

De repente, tenho me visto sentado à mesa, orando, adorando com pessoas destes grupos que eu costumava evitar. 

Tenho aprendido a me abrir para pessoas que vivem fora dos contornos de meu gueto religioso. Aprendi que muitas vezes, outros também encarnam os valores do Reino de Deus até com mais exuberância do que os que se auto-intitulam defensores da sã doutrina.

Creio que foi Santo Agostinho quem disse: “Deus já possui ovelhas em seu aprisco que a igreja ainda não alcançou”. 

Hoje reconheço gestos nobres de instituições como Médicos Sem fronteiras, admiro e reconheço o altruísmo de freiras que cuidam de orfanatos, respeito à disposição de padres que se entregam aos necessitados. Louvo a Deus por cristãos, que mesmo não participando de nenhuma instituição, comportam-se como cidadãos do reino de Deus.

Madre Teresa repetia que cuidava de mendigos e leprosos com todo amor, porque Deus poderia estar disfarçado no meio deles. 

Isso nos lembra as palavras de Jesus: “Digo-lhes a verdade: Os que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”.

Estes dias têm me levado ao famoso provérbio de Maldenius:

“Na unidade dos fundamentos, na liberdade dos não-fundamentos, em todas as coisas caridades”

Rupertus Maldenius sussurrou esse provérbio às gerações futuras por volta de 1627 ou 1628, durante a Guerra dos Trinta Anos. Esse conflito armado teve início em 1618 por causa de diferenças religiosas entre católicos e protestantes e é uma conseqüência da Reforma Protestante. Essa “guerra religiosa” promoveu grandes matanças, verdadeiros banhos de sangue, e a paz só veio com o “Tratado de Westphalia” em 1648. 

O “Provérbio de Maldenius” sintetiza o que os pioneiros pensavam sobre a busca pela unidade cristã. E, além disso, reflete o que o Novo Testamento ensina sobre o assunto, pois suas páginas mostram que os Apóstolos e as igrejas bíblicas não concordavam em tudo. Pelo contrário, naquilo que era essencial eles tinham unidade, mas nas opiniões usufruíam da liberdade que há no Espírito. Portanto, os princípios contidos nele são bíblicos. 

No Brasil esse provérbio ficou conhecido na seguinte versão: “No essencial, unidade; Nas opiniões, liberdade; Em todas as coisas, o amor”.

“Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos”. (Efésios 4:4-6).

Reconhecemos que há diferenças doutrinárias entre os cristãos e que elas são, muitas vezes, a causa de inúmeras divisões. Por outro lado, entendemos que a busca pela unidade Cristã no século XXI, que é a vontade de Deus para nós em todos os tempos, passa, sem dúvida, pela concordância nas doutrinas essenciais e pela tolerância nas doutrinas secundárias. 

A tolerância e o apreço às opiniões dos demais nos enriquecem. A nossa união não está fundamentada na uniformidade doutrinária, mas no amor de Cristo e isso se evidencia na grande diversidade entre nós.

O amor é a ponte entre o essencial e o secundário, entre o absoluto e o relativo, entre o básico e o derivado, entre o divino e o humano. 

É o amor de Jesus em nós que permite que haja unidade, pois basta estar presente em um pequeno grupo para observar que não há duas pessoas que estejam de acordo em tudo. Pense em uma comunidade inteira? E se ela tiver centenas ou milhares de membros?

Em todas as coisas nós devemos sempre demonstrar o amor de Jesus.

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