Acolher o outro em casa não é controlar, mas, sim, doar. Não são as nossas expectativas que devem ser saciadas, mas a necessidade do outro.
Mas como tolerar diferenças entre semelhantes? Como reconhecer um indivíduo como um igual e, ao mesmo tempo, outorgar-lhe o direito de ser o outro?
O mais comum é que estejamos gerando alguma justificativa para nós mesmos por conta desta diferença: ou o outro é menos inteligente, ou menos sensível ou menos qualquer coisa; ou talvez não seja o outro, mas sua formação, seu pai ou sua mãe, ou qualquer terceiro que o incapacitou de distinguir o que eu distingo.
Essa lógica só pode ser contestada se aceitarmos o “outro”. Aceitar o “outro” significa que ele não tem que caber em sua lógica. Mais ainda, pressupõe o entendimento de que é a nossa própria lógica, e não a do outro, que gera becos se saída.
É muito difícil aceitar o “outro”. Mas a situação é clara: ou aceitamos o “outro” ou ficamos magoados. Pode ser mágoa oculta, polida por conveniência, diplomacia ou impotência, mas ela se manifestará no momento oportuno.
Sempre que confrontado por um rival ou ameaçado por um antagonista, o ser humano experimenta a liberação de hormônios de seu instinto animal.
O ódio é o elemento mental e emocional que justifica para um ser racional a sua agressividade.
Nada atormenta mais o ser humano do que seus ódios!
Tanto ódio ao outro quanto o ódio a si ampliam o espectro do medo na experiência humana. Se observarmos com cuidado, veremos que todos os nossos ódios são fomentados pela insegurança e pelo medo.
Toda vez em que o outro confronta seu fundamento, o ser humano entende que este é um ataque que só pode ser administrado no campo do ódio.
Talvez para o ser humano essa seja a maior violência: provocar em si a insolúvel ambivalência entre o ódio ao outro e o ódio a si.
É preciso enxergar que o amargo, aquilo que azeda, muitas vezes não é a versão ou a teologia, mas o canal da escuta. Para realmente ouvir o outro, é preciso estar num âmbito distinto do pessoal.
Traga o outro para casa!
Traga para casa o outro que não é neutro, mas o outro que do ponto de vista da identidade é um inimigo. Para tal proeza é necessário cultivar a prática de lidar com os medos.
Não somos como Deus pelo fato de sermos criativos e inventivos como o Criador. Somos como Deus porque somos capazes de sentir a compaixão que hospeda. Deus nos acolhe e nos dá guarida, e nós podemos proceder da mesma forma. Abrir espaço na sua casa, abrir lugar e acomodar o outro é ser Deus para um ser humano.
Só um ser desenvolvido em plenitude pode usufruir mais durante o ato de agraciar do que no ato de gratificar-se.
Acolher o outro é muito mais do que receber. É poder desprender-se de medos que de tão profundos e naturais são percebidos como fundamentos.
A verdadeira identidade é aquela que se sustenta sem esses alicerces. Uma identidade formada não pela exclusão do outro, mas, ao contrário, onde o outro é a base imprescindível para o eu.
Nessa condição, dividem pães como companheiros, mesmo que em lados opostos da mesa.
A identidade não é mais estabelecida pelo lado em que estão, mas pelo banquete, que é compartilhado.